Travelling Toes

Bits of the life of toes that can’t seem to stay too long at the same place…

Archive for April, 2007

A gente se acostuma…

Posted by simonecarrocino on April 25, 2007

O meu post anterior me fez lembrar este texto lindo da Marina Colasanti. Lembrei porque sempre que reclamo de poluição e trânsito com um paulista, ouço a mesma resposta: você se acostuma! 

Bem, tenho passado mais tempo em Sampa do que no Rio, e posso dizer que nunca consegui me acostumar.

Mas para mim a questão nem é esta. É que tem coisas que não quero nem devo me acostumar! É uma questão de valores; de quais coisas realmente são importantes na sua vida. A minha felicidade está muito relacionada à proximidade com a natureza, e está longe de ser medida em $$ifrões.

 Cada um com seu cada um, eu sei. Mas é sempre bom lembrar de certas coisas que passam desapercebidas por uma questão de hábito.

O texto vai aí embaixo, espero que gostem:

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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São Paulo, poluição e por-do-sol

Posted by simonecarrocino on April 25, 2007

Traffic & Sunset in Sao Paulo, originally uploaded by simonecarrocino.

Eu estava lendo um artigo numa veja São Paulo sobre o nível de poluição na cidade durante o mês de março. Devido ao verão fora de época e à falta de chuvas, a cidade estava bem poluida, e principalmente o nível de ozônio na atmosfera estava alarmante.

O lado bom desta história (se é que se pode considerar que existe um lado bom), é que os paulistas foram agraciados com céus violeta durante o por-do sol (como se observa na foto acima).

O lado ruim, acho que todos já sabem, e muitos sentem na pele (literalmente), mas acho que sempre é bom lembrar. Problemas respiratórios, alergias, pronto-socorros lotados.

Mas na minha opinião, existe um problema que é pior que todos os outros. Eu já desconfiava disso, mas nao tinha certeza se era verdade. Quando os níveis de ozônio ficam altos assim, é extremamente desaconselhável a prática de exercícios ao ar livre. E o pior: o Ibirapuera, que os paulistas se gabam tanto, é o pior lugar para estar. Parece que as árvores nestes casos mais atrapalham do que ajudam (não me pergunte porque…).

Parece que a única saída é fugir de São Paulo mesmo. Não tem jeito: podem argumentar a vontade sobre bons restaurantes, vida noturna, melhores serviços, o que for… qualidade de vida pra mim não tem nada a ver com isso. A qualidade do ar que respiramos tem um efeito muito mais forte e definitivo na nossa qualidade de vida do que todos estes valores materias.

É curioso estes níveis de poluição estarem tão altos bem no meio da campanha “cidade limpa”. A poluição visual é levada a sério, mas esqueceram da poluição atmosférica. Erro grave. Afinal, São Paulo tem o privilégio de ser um dos poucos lugares no mundo onde você literalmente vê o ar que respira.

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Caixa Dois

Posted by simonecarrocino on April 16, 2007

Vai parecer que estou amargurada com a vida ou algo do gênero, mas venho aqui novamente fazer minha crítica ao teatro nacional.  Caro demais para a qualidade dos textos. Principalmente em se tratando de comédias.
Desta vez falo isto nem por causa de alguma peça que assisti recentemente, mas sim o filme Caixa Dois, baseado em uma peça de mesmo nome. O filme não é de todo mal, mas acho que entra naquela categoria de filme nacional que acaba não sendo tão mal avaliado porque é nacional. Vira café com leite. Se fosse de holywood a crítica já tinha caído em cima.

Novamente, o problema aqui é histórias bobas e argumentos fracos. Pelo menos desta vez o elenco tinha o seu valor. Até ri um pouquinho, e tal, mas sinceramente o filme é totalmente “sessão da tarde” e não vale o valor do ingresso. Pelo menos paguei valor de cinema, e não de teatro :-)

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